Conto: O Dueto que Deus Não Ouviu (Emerson Araújo)

Dionísio, ex-pároco do Canto Bom, teve que sair para o povoado Poços do Ipu Iru com Mariazinha, musicista da Igreja de São Raimundo Nonato dos Vaqueiros Aboiadores, para viverem um amor irreversível.

A fuga não foi planejada como nos filmes. Não houve cartas de despedida nem malas grandes. Apenas o essencial: algumas roupas, o violão de Mariazinha e um silêncio pesado que se instalou entre os dois enquanto o ônibus avançava pela estrada vermelha.

— Quando descermos — disse Dionísio, quebrando o silêncio — não vamos ser quem éramos.

Mariazinha assentiu, os olhos fixos no vidro empoeirado.

— Eu já não era quem parecia — respondeu. — Só estava desafinada comigo mesma.

Poços os recebeu com indiferença. O povoado tinha sinal de internet fraco, mas fofoca forte. Em poucos dias, todos sabiam que o “ex-padre” morava com uma mulher que tocava violão à noite.

Dionísio tentou trabalho na escola, depois no mercadinho. Ninguém dizia não diretamente, mas ninguém dizia sim.

— Eles não esquecem — disse ele uma noite, sentado na calçada, olhando o celular desligado. — Para eles, eu sempre vou ser o homem que traiu o altar.

Mariazinha se sentou ao lado dele.

— E eu vou ser a tentação — respondeu. — Engraçado como o amor sempre leva a culpa inteira.

Ela começou a tocar nas noites de sexta no bar da praça. Voz doce, letras que falavam de ausência, fé quebrada e desejo. O bar enchia. Dionísio observava de longe, orgulhoso e inquieto.

— Você brilha — disse ele depois de um show.
— E você apaga um pouco mais a cada dia — respondeu ela, sem crueldade, apenas constatação.

As mensagens começaram a chegar. Primeiros cochichos digitais, depois ameaças claras.

“Volte enquanto é tempo.”
“Deus cobra caro.”
“Você vai pagar.”

— Isso não é Deus — disse Mariazinha, lendo por cima do ombro dele. — É gente.

— Às vezes a diferença é mínima — respondeu Dionísio.

Na manhã do festival de aniversário de Poços, Mariazinha foi convidada para cantar na praça. Era a maior plateia que já tivera. Ela tremia de ansiedade.

— Se eu conseguir — disse ela — talvez a gente fique. Talvez dê certo.

Dionísio segurou as mãos dela.

— Se não der?

— A gente continua. Amor irreversível, lembra?

À noite, a praça estava cheia. Luzes improvisadas, crianças correndo, celulares erguidos. Mariazinha subiu ao palco. Dionísio ficou na lateral, meio escondido.

Ela começou a cantar uma música nova, escrita para ele. Falava de um homem que trocou o púlpito pelo risco, o céu prometido pela vida imperfeita.

Alguns ouviram em silêncio. Outros murmuraram.

No meio da segunda estrofe, um grito cortou a melodia.

— Herege!

A confusão foi rápida demais. Um empurrão. Um copo voando. Dionísio correu em direção ao palco.

— Mariazinha! — gritou.

Ela tentou descer, mas tropeçou nos cabos. O som agudo do microfone caindo ecoou junto com o impacto seco do corpo no chão.

Silêncio.

Depois, gritos.

Dionísio chegou primeiro. Ela estava caída, os olhos abertos, o violão quebrado ao lado. Havia sangue, pouco, mas suficiente para entender.

— Ei… fica comigo — ele disse, ajoelhado, segurando o rosto dela. — Eu ainda não aprendi a viver sem você.

Os lábios de Mariazinha se moveram com esforço.

— Não… volta — sussurrou. — Continua… mesmo assim.

A ambulância demorou. Poços voltou a ser pequeno demais.

Mariazinha morreu antes de chegar ao hospital da cidade vizinha.

No velório, ninguém tocou música. Dionísio ficou sozinho no último banco. Não rezou. Não chorou alto. Apenas segurava o estojo vazio do violão.

Dias depois, ele deixou Poços. Não voltou ao Canto Bom. Ninguém soube para onde foi.

Dizem que anda pelas cidades pequenas, sentado em praças, ouvindo músicos anônimos. Quando alguém pergunta quem ele é, responde apenas:

— Fui padre. Fui amante. Agora sou memória.

Porque alguns amores não foram feitos para durar. Foram feitos para quebrar certezas, desafinar destinos e deixar cicatrizes tão profundas que nem a fé consegue apagar.

A importância da Academia de Letras para o fortalecimento da cultura e da inteligência local

 
Por Emerson Araújo

Uma Academia de Letras nasce, antes de tudo, como um gesto coletivo de cuidado com a palavra. Ela não surge apenas para celebrar escritores consagrados, mas para proteger a memória cultural de uma comunidade.

Em cada cidade, vila ou região, existem histórias que não estão nos grandes livros. Essas narrativas vivem na oralidade, nos costumes, nos sotaques e nos modos de pensar.

A Academia de Letras atua como guardiã desse patrimônio. Ela registra, organiza e valoriza a produção intelectual local. Ao fazer isso, impede que saberes se percam com o tempo.

Mais do que um espaço simbólico, a Academia é um centro de reflexão. Nela, a língua é estudada em diálogo com a realidade social. Isso fortalece a identidade cultural de um povo.

Quando a identidade é reconhecida, a autoestima coletiva cresce. A comunidade passa a se ver como produtora de cultura, e não apenas como consumidora de ideias externas.

Outro papel essencial da Academia é o incentivo à leitura e à escrita. Projetos literários, saraus e publicações aproximam a população do universo das letras.

Esse contato amplia horizontes intelectuais. A leitura desenvolve pensamento crítico. A escrita organiza ideias e fortalece a argumentação.

Assim, a Academia contribui diretamente para o fortalecimento da inteligência local.

Inteligência aqui não é apenas erudição, mas capacidade de compreender e transformar a realidade.

A presença de uma Academia de Letras também dialoga com as escolas e universidades. Ela cria pontes entre o saber acadêmico e o conhecimento produzido no cotidiano.

Esse intercâmbio estimula jovens talentos. Mostra que é possível produzir literatura e ciência a partir do próprio território. Isso combate a ideia de que o saber vem sempre de fora.

Além disso, a Academia preserva a memória histórica. Biografias, crônicas e registros documentais ajudam a entender o passado local. E compreender o passado é essencial para planejar o futuro.

Em tempos de globalização acelerada, o risco de apagamento cultural é real.

A Academia de Letras funciona como resistência simbólica. Ela afirma a singularidade de cada comunidade.

Por fim, investir em uma Academia de Letras é investir no desenvolvimento humano. Cultura e inteligência caminham juntas. Onde a palavra é valorizada, a sociedade se fortalece.

Poema: Constelação no Peito Aberto


Emerson Araújo

A canção que ponho é janela aberta,
respira o mundo em sílabas de sol;
por ela entra o dia em passo lento
e o sonho aprende a não pedir licença.

Nela, o meu povo é bandeira erguida,
tingida em fogo de tom carmesim;
não pano imóvel preso ao vento cego,
mas chama viva em corpo coletivo.

Meu povo traz no rosto a fome antiga,
sede de chão, de pão, de dignidade;
carrega o peso áspero da espera
como quem guarda o grito no pulmão.

E chora lágrimas de longa estrada,
sal que desenha mapas na esperança;
cada soluço escreve na memória
o que a história tentou apagar.

Mas grita, sim, na busca de outra estrela,
não a que brilha só para poucos olhos;
procura luz que caiba em muitas mãos
e não se venda ao preço do silêncio.

A canção então se faz ferramenta,
martelo manso batendo no escuro;
abre frestas no muro do impossível
e ensina o medo a desaprender-se.

Se a noite insiste em fechar caminhos,
meu verso fica em vigília acesa:
janela aberta, povo em movimento,
estrela nova nascendo do grito.